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Tenho um livro sobre águas e meninos.

Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água.

O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.

Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio.

Falava que os vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.

Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.

E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

O menino fazia prodígios.

Até fez uma pedra dar flor!

A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta.

Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios com as suas peraltagens e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos

Manoel de Barros

Avatar

    (Publicado no www.saindodamatrix.com.br)
    Avatar é o boneco de Deus na Terra. Do sânscrito Avatara(que significa “Descida“, no sentido “do céu para a terra”), esse nome se refere a manifestação de uma deidade em nosso mundo. Há duas formas de Avatar: O direto e o indireto. Direto (sakshat) é quando o Deus aparece diretamente, seja como Vishnu, seja como o arbusto flamejante pra Moisés. Indireto (avesa) quando investe de poderes uma uma pessoa, como ocorre com Jesus, Krishna, Buda, Vasudeva, etc.

Com a popularização da Internet e suas redes sociais, passamos a usar o nome “Avatar” pra representar nossa imagem (e personalidade) online. Ao criamos um personagem para nós no Orkut, Facebook ou jogos on-line, agimos como deuses dentro de um mundo (seja ele um novo mundo social, como o Orkut, ou um mundo virtual, como The Sims) e interagimos com seus habitantes através de um veículo e suas limitações (no caso, o que esse personagem pode fazer no mundo). Estamos criando realidades e nos tornando um pouco deuses, assim como antigamente em muitas culturas o patriarca era o deus em sua casa.

Mas Avatar será conhecido de agora em diante como o filme mais imersivo e espetacular já criado para o cinema. Graças ao avanço feito na técnica de exibir imagens em 3D, James Cameron nos presenteou com um filme que vai ficar na mente de toda uma geração, assim como Star Wars ficou na mente de James Cameron. Se você nunca viu um filme em 3D, ESSE é o filme que você deve ver em primeiro lugar. Levem seus filhos, família – todos que pensam que já viram de tudo no cinema e estão confortáveis com TVs de 50 polegadas pra não ter que sair de casa e ver mais do mesmo – leve-os para serem DESAFIADOS a repensar o conceito de entretenimento, leve-os a uma experiência visual que, de tão intensa, se torna visceral. Suas crianças herdarão uma mensagem de proteção ambiental, e a luta contra a ganância humana. E ao dormir desejarão acordar em Pandora, como eu desejei.

Fiquei tão impressionado com a EXPERIÊNCIA de ver esse filme em 3D que estou considerando seriamente uma viagem a Curitiba só pra ver esse filme em IMAX 3D, uma tela de 300m² de alta definição, e como se não bastasse em terceira dimensão… só de pensar meu coração bate mais rápido… Então se alguém aí trabalha com agência de viagem e conseguir passagens de ida e volta de Recife/Curitiba por um preço módico, por favor entrem em contato: truxton 2 @gmail .com (sem os espaços).

Mas este post não é uma crítica sobre o filme. Isso eu já fiz aqui. O que venho lhes mostrar é que a proposta tecnológica do filme, a de que poderemos no futuro estar controlando o corpo de outros seres, não é tão ficção científica assim. Pra isso precisamos saber a premissa básica da história, que é: no futuro (2150), o ser humano (leia-se “grandes corporações”) estará em busca de novos planetas. Não pra colonizar, não pra conhecer novas raças, mas pra explorar seus recursos naturais, como fazemos aqui na Terra. E a bola da vez é Pandora, um planeta habitado pelos Na’vis (criaturas azuis com o avanço tecnológico de nossos indígenas de outrora). Debaixo de onde eles moram há uma reserva enorme de um minério que vale bilhões para os humanos, então as corporações mandam cientistas para o planeta pra fazer amizade com os Na’vis, dentro de corpos Na’vi geneticamente modificados (os Avatares), que eles podem controlar remotamente, utilizando o pensamento.

Viagem na maionese? Não mesmo
Pierpaolo Petruzziello é um brasileiro que sofreu um acidente de carro em 2006 e perdeu a mão. Seu pai resolveu inscrevê-lo num projeto que visa utilizar uma mão biônica movimentada pelo pensamento, assim como nossa mão orgânica o é. Microeletrodos foram implantados nos músculos de Petruzziello, que transformam os sinais enviados pelo cérebro para o músculo em movimentos da mão e dedos. Pierpaolo conseguiu fazer movimentos complexos com a mão usando apenas o pensamento, como segurar uma bola com a ponta dos dedos. Notem que não há um implante real, uma ligação física entre a mão e os músculos. Os eletrodos é que captam os dados e retransmitem para a máquina. Ou seja, ele poderia movimentar a mão pela internet, se os cientistas assim o quisessem.

Apesar de ser excelente para quem perdeu a mão, traduzir a intenção de se mover para uma contração muscular exige esforço consciente. O próximo passo é desenvolver uma prótese que possa ser controlada pelo pensamento direto. E isso já está sendo desenvolvido na Universidade John’s Hopkins, em Baltimore, nos Estados Unidos. Pesquisadores gravaram a atividade cerebral de macacos enquanto eles moviam os dedos em formas diferentes. Então criaram algoritmos para decodificar esses sinais enviados pelo cérebro, identificando cada padrão específico. Conseguiram que a mão robótica se movesse como previsto em 95% dos casos. Movimentos simples, mas promissores.

Pierpaolo Petruzziello explica o processo pelo qual ele move a mão, que é um tanto quanto metafísico: “Eu fecho meus olhos e repito pra mim mesmo: minha mão existe“. E ele consegue. Na verdade, segundo os cientistas ele foi o primeiro a conseguir fazer movimentos complexos com essa mão biônica. O que nos leva ao filme Avatar. Nele a criatura Na’vi que a pessoa vai controlar é “moldada” num nível genético de acordo com as características do DNA do controlador. Isso pra haver uma “resposta” das células da criatura com o pensamento do controlador. Muito viajado? Não mesmo. Cientistas já reconhecem que as moléculas do corpo são controladas por freqüências de energia vibracional, seja luz, som ou eletromagnetismo, que é o próprio pensamento. Mas já vimos isso acontecer há mais tempo ainda na mediunidade, onde supostamente um espírito (de alguém desencarnado) controla (total ou em parte) um médium (alguém encarnado e sensitivo) a longa distância (vindo de diferentes vibrações, quiçá outros mundos, se formos acreditar nos livros espíritas!) através de uma afinidade vibracional. Aprendemos muito por meio de Chico Xavier sobre a mediunidade. Há toda uma preparação do receptor, pra que ele se afinize com o espírito em um nível de pensamento/vibração. Isso pode levar anos de treinamento pra receber com clareza os “comandos” (pensamento) do espírito (Levou anos com o Chico, que foi um dos mais completos médiuns do mundo!!). Após o processo estar “otimizado” vemos uma simbiose entre o “comandante” e o “comandado”. Pode até mudar o rosto, a postura, o olhar, dependendo das partes que o espírito controla. Aprendemos que todos somos médiuns, em algum nível, mas o organismo dos médiuns mais “ativos” possuem uma característica que vem sendo mapeada pelo Dr. Sérgio Felipe de Oliveira, que fez tomografia computadorizada em pacientes com mediunidade “alta” e percebeu que a pineal deles possue mais cristais de apatita que o normal. É como se eles fossem um rádio ou sintonizador de melhor qualidade (leia mais aqui).

O tema tem tudo a ver (filme Avatar, medicina e espiritismo) com o que vínhamos tratando nos posts mais recentes, que é o avanço na descoberta das maravilhas da mente, do quanto ela é responsável por nosso “eu” não só a nível psíquico, mas biológico, mesmo nos menores detalhes a nível celular. E aonde está essa “mente”? Ela desafia neurocientistas a mapeá-la, eles simplesmente não podem localizar suas funções em lugares específicos no cérebro! É isso que nos diz o neurocientista paulista Miguel Nicolelis, neste vídeo. As funções do corpo não são determinadas “pela geografia”, mas sim “pelas demandas que se impõem ao cérebro”. “Se a pessoa perde a função visual, a função táctil se distribui para todo o córtex cerebral – inclusive para o córtex visual”. Segundo o neurocientista, o cérebro tem a função de “remapear o mundo”. “A plasticidade é inerente à dinâmica do cérebro, misturando múltiplas visões”,

Nicolelis chefia um grupo de 30 pesquisadores no Centro de Neuroengenharia da Universidade Duke, na Carolina do Norte (EUA). Ele pesquisa as possibilidades de integrar o cérebro às máquinas, abrindo a possibilidade para que alguém “pense” em um lugar e uma ação seja desencadeada por um instrumento em um localidade distante. No ano passado, a equipe conseguiu fazer um robô de 80 quilos e um metro e meio de altura andar usando apenas a força do pensamento de uma macaca. Detalhe: o animal estava em um laboratório na Carolina do Norte, e o robô estava no Japão. Os experimentos são avanços na criação de uma interface entre cérebro e máquina que permita a pacientes paralisados andarem ou se movimentarem, guiando membros mecânicos apenas por meio de ondas cerebrais, e recebendo a resposta “tátil” por meio dessa mesma interface. “O nosso alcance vai mudar, no longo prazo, nossa noção de ambiente, de presença física”, afirmou. “É como se houvesse uma incorporação ao corpo”, afirma. Segundo ele, isso será possível por meio da interação entre as máquinas e o cérebro humano – que passaria a considerar aparelhos, mesmo que estivessem distantes, como se fossem parte do ser humano. Para isso, é preciso que o cérebro receba e “entenda” os sinais emitidos pelos aparelhos e vice-versa. Segundo ele, isso não está muito longe. “No caso de um tenista, já é como se o cérebro entendesse a raquete como uma parte do corpo”, diz.

Fantástico, não?

(texto de Marina Colasanti, publicado no Jornal do Brasil)

Na estação ferroviária quase vazia, um homem avança levando uma menina pela mão. Arrasta uma maleta. Sei que avança, porque o vejo na foto inclinado para a frente. E sei que a menina anda mais devagar, porque está uns passos atrás dele, e estica de leve o braço. Há muitos bancos vazios na estação àquela hora. Dali a pouco, o homem sentará a menina num deles e lhe dirá que fique ali quieta, que o espere sem chorar, porque ele logo volta. É provável que insista, eu volto. E ela chora bem baixinho quando ele se afasta, porque é pequena e tem medo, mas já aprendeu a obedecer ordens. E espera.

Quando escrevo, é só isso que se tem, uma foto e uma menina abandonada na estação de Melbourne, uma menina que se chama Qian Xun, mas que o mundo, apropriando-se em segundos da notícia e da menina, rebatizou Pumpkin. Polícia e jornais dizem que todos os indícios apontam para o pai como sendo o homem da mala.

Quando eu era criança, quando a minha mãe era criança, quando a minha avó e a mãe de minha avó eram crianças, quando as minhas filhas eram crianças, contava-se uma história semelhante. Não se passava na estação, mas no bosque. Um pai premido pelas dificuldades, levava seus filhos, o menino João e a menina Maria, para o bosque, e ali os deixava. Antes de ir embora, ele também dizia que ficassem quietos, brincassem, que ele ia cortar um pouco de lenha, e voltava logo.

Nem o pai de João e Maria, nem o de Pumpkin voltaram para buscá-los. João e Maria, graças a uma esperteza, conseguiram regressar para casa. Mas foi inútil, porque passados alguns dias o pai tornou a levá-los ao bosque, e dessa vez a esperteza não funcionou. Pumpkin é pequena demais para ter espertezas e voltar sozinha para casa. E, mesmo que o conseguisse, não encontraria o pai que, segundo a polícia, duas horas depois de deixá-la na estação tomou um avião para Los Angeles.

Inúmeras vezes, quando faço conferências ou em entrevistas, me perguntam se os contos de fadas não estão desatualizados, fora do contexto do nosso mundo moderno. Mas nossos moderníssimos adultos continuam abandonando crianças nos bosques urbanos, nos terrenos baldios, nas lixeiras, onde é grande o risco de serem carregadas pelos lobos, devoradas pelas feras, escravizadas pelos ogros.

Na casa de Pumpkin a vida era tão áspera quanto na do lenhador. O pai sofria de depressão, os negócios iam mal, o dinheiro estava curto. Várias vezes ela viu a polícia chegar, chamada pelos vizinhos para cuidar da violência que explodia. Pai e mãe acabaram se separando. Ainda assim, Pumpkin sentia-se mais segura na sua casa do que no lar provisório que a polícia lhe arrumou. Nos primeiros dois dias com aquela família desconhecida não falou uma única palavra e agora só responde sim e não.

Os contos de fadas, me dizem tantas e tantas vezes os adultos, são violentos demais para crianças. E franzem a testa em horror, citando logo avós devoradas, madrastas perversas, indivíduos metidos num saco e jogados no rio, irmãs degoladas, demônios descendo pela chaminé, bandidos, feiticeiros, gigantes. Muitos me garantem com orgulho terem “limpado” esses contos para seus filhos.

Escrevo à tarde, mas não é difícil prever que à noite, na televisão, todos os noticiários do mundo inteiro contarão a história de Pumpkin. Seu rosto não será poupado, como não o foi nos jornais. E teremos mais detalhes, provavelmente sinistros, sobre sua família, sobre o homem que a levou pela mão e a abandonou, sobre sua mãe que, até este momento, está desaparecida. Em muitas e muitas casas, em muitas línguas diferentes, crianças ouvirão a história dessa pequena Maria abandonada no bosque por quem devia cuidar dela, e estremecerão, sabedores do perigo que correm, pois toda criança corre o risco de ser maltratada pelos adultos.

Não sei que histórias Annie Liu, a jovem mãe de Pumpkin, lhe contava. É provável que fossem antigas histórias chinesas, cheias de dragões e de espíritos transformados em raposas, cheias de bandoleiros e de guerras. Mas se, em casa, Pumpkin aprendeu a violência, não foi nos contos trazidos pela voz da mãe.

A violência estava no cotidiano dos pais, nas notícias do fim do dia, no que Pumpkin conseguia entender do que via e do que ouvia, a violência estava em toda parte murmurando nos seus ouvidos palavras de medo. Nos contos, ela aprendeu a percepção que desmascara as falsas raposas, a astúcia que defende dos bandoleiros, a força que domina os dragões, a sabedoria que se opõe às guerras. Nos contos aprendeu a buscar soluções, assim como há séculos as crianças aprendem que madrastas e maçãs podem envenenar, mas o beijo de amor revive; que as filhas do ogro são decapitadas, mas os irmãos do Polegarinho se salvam; que o filho do moleiro nasce sem vintém, mas o Gato de Botas lhe garante uma noiva e uma fortuna; que há um cisne à espera no futuro de todo patinho feio.

O que Pumpkin aprendeu nos velhos contos chineses não impediu que fosse abandonada na estação. Mas pode ajudá-la a recuperar as palavras e abrir um novo caminho.

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar.

Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões – é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica.

De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”. Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.

Por isso – porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver – eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…

(O texto acima foi extraído da seção “Sinapse”, jornal “Folha de S.Paulo”, versão on line, publicado em 26/10/2004)

Seg, 25 Jan, 05h27 Sandra Maia*

Adoro esse tema! Adoro porque é praticamente impossível para muitos de nós compreender que há diferenças entre homens e mulheres. E, se sim, há diferenças praticamente abismais, por que então imaginamos que na relação devemos agir tal e qual? E pior: por que será que fantasiamos ser iguais e lidar com as questões do dia a dia da mesma maneira? Complexo? Sim, complexo. É mesmo complicado entender que sim, se somos diferentes, temos essências e necessidades diferentes. Modos de ver a vida distintos.

Formas de avaliar situações especiais. A questão é que na relação, quando deixamos de lado as convenções, as regras, colocamos tudo a perder… Então vamos lá: HOMENS E MULHERES – MARTE E VÊNUS. É!

Quanto mais rápido assimilarmos o conceito, mais fácil se desenvolverão nossas relações. E como acontece a inversão no dia a dia? Das mais variadas formas. Hoje, já há uma tendência de o homem a se tornar mais vaidoso, mais feminino – no Brasil principalmente, pois somos um país de vaidosos.

Ataque

Daí achar que o homem aguenta uma mulher que vai para cima, bem, isso é outra conversa… Até aguenta, mas não sustenta… As mulheres, não preciso nem dizer – todos sabemos o quanto tiveram de se emancipar, conquistar seu lugar. É, o mundo mudou! Mas algumas coisas permanecem e, com ele, as regras e condutas dentro das relações. E, apesar disso, nos iludimos achando que sabemos de tudo e que se dane, vamos fazer ao nosso modo. Assistimos daí a um festival, daqueles que FICAM – sem se importar com o amanhã, com o que virá depois. Eles não têm tempo de processar a informação e/ou construir qualquer relação. Ficam por aí – tolos -, achando que estão se conhecendo. Confundem a importância do processo do caminhar e vão direto ao resultado – aos finalmentes.

Diálogo

A questão é que muitos destes vão para uma união sem ao menos terem discutido se querem ou não ter filhos, se vão ou não dividir as despesas da casa, etc. Ou seja, tudo é urgente. E, por isso, não dá para saber qual o nosso papel.

Pior: não sabemos nem o papel do outro, e este, por tabela, também o desconhece. Então, fácil deduzir, em uma relação onde o homem não exerce o papel de homem e a mulher de mulher há poucas chances de sucesso. As mulheres estão mais ativas, trabalham, são independentes, donas de seu nariz. Os homens – não posso generalizar – mais muitos continuam sendo os filhos.

Por isso, o que assistimos é a um descontentamento geral. Mulheres que não se sentem amadas, pois não são mesmo, e homens que não se sentem suficientemente fortes para assumir sua decisão – qualquer que seja sua conclusão sobre a relação.

De caso com a relação

As relações em parte são, por isso, movidas a mentiras, ao que se pode falar, ao que se tem força para assumir. São superficiais e, no entanto, provocam uma dor imensa – do lado mais fraco. De fato, quero crer que muitos de nós se relaciona com a relação e não com o outro. Se fizermos uma pesquisa nesse momento, vamos ver que para muitos é mais importante a relação, o ter outro para cuidar, se ocupar, do que para crescer, evoluir, construir um amor. Nesses casos fica a dica: adote um bichinho de estimação! Treine, aprenda a dar e receber amor – depois aprenda a valorizar-se. A saber-se importante, único, íntegro. Saber exercer a essência – do feminino, do masculino -, seja para os mais jovens ou para os mais velhos, pode ser algo a ser perseguido.

Está na essência do feminino receber, acolher, ouvir, seduzir. Está na essência do masculino dar, falar, conquistar e assim por diante. Não estou dizendo que é uma coisa ou outra, mas que está na essência, ou seja, nos sentimos melhor fazendo o que nos compete. É menos cansativo, mais prazeroso, mais possível, sem esforço, sem desgaste, sem falsas esperanças.

Verdadeiramente, nós mulheres queremos ser arrebatadas por um grande amor – tanto quanto nossos valiosos cavalheiros querem nos arrebatar. Que assim seja! Os animais entendem isso e, continuam a se dar muito bem… Nós humanos, bem, nós humanos achamos que podemos tudo. A questão é: dá para sustentar? Escolhas, sempre escolhas.

Sandra Maia é autora dos livros: Eu Faço Tudo por Você – Histórias e relacionamentos co-dependentes e Você Está Disponível? Um caminho para o amor pleno. Fale com ela no e-mail smaia@brpress.net.

Acabo de chegar do cinema e assisti ao Up in the Air, ou na tradução ruim: Amor sem escalas, com o lindo George Clooney. Ele faz o papel, mto bem feito por sinal, de Ryan, um executivo de RH.  Sua principal tarefa é demitir pessoas e motivá-las em palestras onde sempre começa com a descrição da “mochila cheia-vazia”…

O filme deu o que refletir. Vi-me na pele do Ryan, da psicóloga que era sua assistente e na Alex, seu par romântico. Estive na pele do Ryan quando ele desliga pessoas. Passo por isso, e, sei por experiência própria, que não é uma notícia das mais agradáveis para se dar. Até agora não soube de nenhuma consequencia tragica, mas fiquei com a pulga atrás da orelha. E pensei cá com meus botões: será que realmente acredito no que eu digo às pessoas que eu demito ou estou repetindo um script vazio e sem sentido????

Senti-me na pele da psicóloga, quando ela sofreu seus conflitos internos, do tipo carreira versus vida afetiva. Sei de tudo o que ela viveu e acredito que ela tomou a atitude correta.

Qto a Alex, aprendi com ela sobre o que fazer qdo me relacionar com um “Ryan” , caso aconteça comigo outra vez…

Mas o que me deixou perplexa foi ver a atitude do Ryan diante da perspectiva de mudar. Quando se tratou da vida profissional, ele brigou para que o status quo se mantivesse e se defendeu, quando precisou se “modernizar” e demitir pessoas via Web. Ele perde o primeiro round, mas não se entrega. Já mais tarde, sua concepção é a que prevalece.

Mas quando se tratou de mudar o seu padrão de relacionamento, foi completamente diferente. Ele sofre uma frustração e desiste.

É isso pessoal, ele simplesmente desiste e não luta. Se acomoda e continua como tudo o que era ANTES de viver o que ele viveu ao longo do filme.

Não sou de contar o fim do filme, mas este filme vale a pena. Dá pra refletir sobre muitos dos nossos padrões e atitudes. Queria que ele ganhasse ao menos um prêmio no próximo Oscar.

E, além de um bom enredo, o George Clooney arrasa de tão lindo…

Meu Deus

Meu Deus…

por Mahatma Gandhi

Ajuda-me a dizer a palavra da verdade na cara dos fortes, e a não mentir para obter o aplauso dos débeis. Se me dás dinheiro, não tomes a minha felicidade, e se me dás forças, não tires o meu raciocínio.

Se me dás êxito, não me tires a humildade se me dás humildade, não tires a minha dignidade. Ajuda-me a conhecer a outra face da realidade, e não me deixes acusar os meus adversários, apodando-os de traidores, porque não partilham o meu critério.

Ensina-me a amar os outros como me amo a mim mesmo, e a julgar-me como o faço com os outros. Não me deixes embriagar com o êxito, quando o consigo, nem a desesperar, se fracasso.

Sobretudo, faz-me sempre recordar que o fracasso é a prova que antecede o êxito. Ensina-me que a tolerância é o mais alto grau da força e que o desejo de vingança é a primeira manifestação da debilidade. Se me despojas do dinheiro, deixa-me a esperança, e se me despojas do êxito, deixa-me a força de vontade para poder vencer o fracasso.

Se me despojas do dom da saúde deixa-me a graça da fé. Se causo dano a alguém, dá-me a força da desculpa, e se alguém me causa dano, dá-me a força do perdão e da clemência.

Meu Deus… se me esquecer de Ti Tu não Te esqueças de mim!

Expectativa versus Esperança

Nestes tempos de começar a fazer planos para o novo ano e de definir metas para o futuro, vale saber a diferença entre a expectativa e a esperança. A primeira angustia. A segunda acalma. Aprenda a lidar com esses sentimentos e aproveitar o melhor do presente e do futuro.

Expectativa é turbulência na mente. A cabeça dispara tentando prever cada detalhe daquele encontro, daquela viagem, daquele trabalho. Os pensamentos correm na frente do tempo e a imaginação fervorosa controla cada movimento, como se essa fosse a garantia da conquista, a segurança de que tudo vai sair exatamente como você quer. Quem já não se enroscou nas teias da expectativa? Como ela está basicamente ligada à onipotência, à arrogância e ao desejo de controle, certamente, vai ser frustrada. Mesmo que aconteça o que se quer, a sensação nunca é de satisfação. Pois a pessoa já gastou tanta energia arquitetando a expectativa, passou tanto tempo imaginando um enredo que, quando realiza o que queria, acha que o universo não fez mais do que a obrigação em atendê-la. E as coisas boas também são desconsideradas

Está certo que, quando queremos muito que algo se realize, é difícil ser tão desprendido. Mas quando você consegue se desgrudar desse controle, só tem a ganhar, porque, abrir mão das expectativas lhe devolve a chance de ser surpreendido pela vida, de percorrer caminhos que são melhores do que aqueles imaginados. Assim recupera-se o prazer de simplesmente aceitar o que vem com o coração.

Além disso, a expectativa nos joga em direção ao futuro com ânsia exagerada. Movidos por ela, acreditamos que é nesse tempo irreal que mora a felicidade, e isso não nos deixa estar bem em lugar nenhum. É claro que vale inventar o amanhã, imaginá-lo da melhor maneira possível, porém é preciso esperar que ele flua a seu tempo, sem voracidade.

Já a esperança é gerada no coração. Tem os olhos no futuro, mas as raízes bem fincadas no presente. Ela se baseia na sabedoria de que o universo dita a hora certa para que tudo brote. Com a esperança, é possível entrar em sintonia com a natureza, abrir caminhos, ampliar horizontes. Ela se multiplica em calma, confiança, clareza, movimento. Nesta época de guerra e de tantos conflitos interiores, a esperança fica balançada, mas há como mantê-la, sempre. Estar no presente é o alimento da esperança. E, o melhor jeito de viver esta fase de guerra é substituindo as expectativas pela atenção às sementes que plantamos todos os dias… A esperança é o sentimento que se desdobra na aceitação da vida, da abundância, da alegria e também da morte, da escassez, da tristeza. Quando se alimenta um desejo com esperança, ele é lançado no espaço, mas ficamos firmes e prontos para receber o que vier de braços abertos. Há a compreensão de que o Universo conspirou da melhor maneira possível a nosso favor, não há a sensação de que nos foi negado um pedido. Porém essa é uma sabedoria que tende a chegar na maturidade com a compreensão de que a vida realmente é feita de altos e baixos.

E o que move as pessoas a consultar os astros, as cartas do tarô, os búzios para saber como será o futuro? A expectativa ou a esperança? Provavelmente, as pessoas vão aos videntes movidas pela expectativa. Mas, para evitar a dor da frustração, a pergunta a ser feita com muita humildade é: quais são as esperanças que eu posso nutrir? O que eu desejo para mim é o mesmo que a vida deseja? Fazer projetos baseando-se nessas respostas pode ser muito nutritivo.

(texto de Liliane Oraggio, publicado na Revista Bons Fluídos)

Seja bem vindo 2010.

(por Carla Ferreira)

Procuro sintonizar meus pensamentos, sentimentos e emoções da melhor maneira e mais positiva, pois assim procuro atrair positividade e manter a mente no estado mais elevado possivel, caso seja necessario enfrentar alguma adversidade.

E como é dificil… Mas vale a pena.

No ultimo fim de semana larguei tudo e me recolhi no Jardim Botanico pra ler o livro : O poder do Agora , do E. Tolle.

Saí de lá com a alma lavada. Fiz os exercicios de purificação mental e aconselho a leitura a todos que procuram evoluir e sair da mesmice…

De qualquer maneira, acredito que 2010 será melhor.

Levo de 2009 muitas experiências. Não necessariamente boas, mas reais.

Acabo de chegar de uma igreja aqui no Centro do Rio de Janeiro, onde fui encomendar uma missa de sétimo dia pra um funcionario da empresa onde trabalho. Realmente é uma experiência que me fez pensar em como estou levando a vida.

Preciso limpar meu caminho diario e retirar os residuos de raiva, desamor e magoa.

Quero perdoar mais e não levar tudo a ponta de faca em 2010.

Se eu conseguir realizar somente este ponto, será MARAVILHOSO.

E espero não esquecer as promessas que faço a mim mesma.

Bon Anné, Carla.

Intimidade

(por Martha Medeiros)

Houve um tempo, crianças, em que a gente não falava de sexo como quem fala de um pedaço de torta.

Ninguém dizia Fulano comeu Beltrana, assim, com essa vulgaridade.

Nada disso. Fulano tinha dormido com ela. Era este o verbo.

O que os dois tinham feito antes de dormir, ou ao acordar, ficava subentendido. A informação era esta, dormiram juntos, ponto.

Mesmo que eles não tivessem pregado o olho nem por um instante. Lembrei desta expressão ao assistir Encontros e Desencontros.

No filme, Bill Murray e Scarlett Johansson fazem o papel de dois americanos que hospedam-se no mesmo hotel em Tóquio e têm em comum a insônia e o estranhamento: estão perdidos no fuso horário, na cultura, no idioma, e precisando com urgência encontrar a si mesmos.

Cruzam-se no bar. Gostam-se. Ajudam-se. E acabam dormindo juntos.

Dormindo mesmo. Zzzzzzzzzzz.

A cena mostra ambos deitados na mesma cama, vestidos, conversando, quando começam a apagar lentamente, vencidos pelo cansaço.

Antes de sucumbir ao mundo dos sonhos, ele ainda tem o impulso de tocar nela, que está ao seu lado, em posição fetal.

 Pousa, então, a mão no pé dela, que está descalço. E assim ficam os dois, de olhos fechados, capturados pelo sono, numa intimidade raramente mostrada no cinema.

Hoje, se você perguntar para qualquer pré-adolescente o que significa se divertir, ele dirá que é beijar muito.

Fazer campeonato de quem pega mais. Beijar quatro, sete, treze.

Quebram o próprio recorde e voltam pra casa sentindo um vazio estúpido, porque continuam sem a menor idéia do que seja um encontro de verdade, reconhecer-se em outra pessoa, amar alguém instintivamente, sem planejamento.

Estão todos perdidos em Tóquio. Intimidade é coisa rara e prescinde de instruções. As revistas podem até fazer testes do tipo: “descubra se vocês são íntimos, marque um xis na resposta certa”, mas nem perca seu tempo, a intimidade não se presta a fórmulas, não está relacionada a tempo de convívio, é muito mais uma comunhão instantânea e inexplicável.

Intimidade é você se sentir tão à vontade com outra pessoa como se estivesse sozinho.

É não precisar contemporizar, atuar, seduzir.

É conseguir ir pra cama sem escovar os dentes, é esquecer de fechar as janelas, é compartilhar com alguém um estado de inconsciência. Dormir juntos é muito mais íntimo que sexo.

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